O icônico personagem James Pond, protagonista de uma série clássica dos anos 80 e 90, voltou ao centro de uma polêmica envolvendo a System 3. A empresa anunciou a coletânea James Pond Legacy, que inclui materiais promocionais e elementos de museu digital sob forte suspeita de terem sido gerados por Inteligência Artificial (IA), gerando indignação em Chris Sorrell, o criador e desenvolvedor original da franquia.
Ausência de consulta ao criador original
Chris Sorrell, responsável pela criação do personagem e pelo trabalho de programação, design e arte em títulos fundamentais como James Pond: Underwater Agent, James Pond 2: Codename Robocod e James Pond 3: Operation Starfish, confirmou que não teve qualquer participação no projeto. Ele declarou categoricamente que não foi consultado ou envolvido na produção desta coletânea, um fato que, segundo ele, não chega a ser uma surpresa.
Para o desenvolvedor, a exclusão de sua participação é um reflexo direto da falta de respeito da System 3 pela franquia. Sorrell argumenta que, para haver uma colaboração, seria necessário que os envolvidos tivessem ao menos um mínimo de consideração pela história de James Pond, algo que ele afirma estar ausente nas ações da atual detentora dos direitos da marca.
O criador também mencionou que não mantém qualquer tipo de relação com Mark Cale, o chefe da System 3. Embora Sorrell reitere que ainda possui grande respeito pelos jogos originais desenvolvidos pela empresa nos anos 80, ele lamenta profundamente que a organização tenha se juntado à Gameware no que ele classifica como um processo de “estupro e pilhagem” do legado de James Pond.
A situação é agravada pelo fato de Sorrell não possuir mais os direitos sobre o personagem, que hoje são compartilhados entre a Gameware e a System 3. Após uma série de transações corporativas iniciadas com a aquisição da Millennium Interactive pela Sony em 1997, o controle da marca seguiu um caminho que deixou o seu criador original apenas como um observador impotente diante do tratamento atual dado à sua obra.


As críticas à qualidade dos materiais em IA
As suspeitas de que a System 3 utilizou IA generativa para criar artes da coletânea e o trailer de divulgação foram recebidas com ceticismo por Sorrell. Ele criticou a postura da empresa em tentar negar o uso de ferramentas automatizadas, chamando as justificativas dadas pela produtora de “lixo de IA” e questionando o discernimento do público que a empresa espera enganar com tais explicações.
Um ponto de forte crítica foi o exemplo do “fluxo de trabalho” Bovine Bomber, apresentado pela System 3 como suposta prova de que o material foi produzido manualmente. Sorrell questionou por que qualquer desenvolvedor perderia tempo criando uma versão no Adobe Illustrator de um design de personagem já consolidado, classificando a justificativa como ilógica para profissionais da área.
O criador desafiou a empresa a apresentar evidências reais de um processo de desenvolvimento humano, como o envio de uma malha de wireframe dentro de um pacote 3D, caso queiram provar que as imagens não foram geradas por IA. Para ele, a tentativa de justificar a autenticidade dos ativos apenas reforça a falta de transparência e a baixa qualidade técnica envolvida no projeto da coletânea.
Além de James Pond, a System 3 já enfrentou críticas anteriores por utilizar artes suspeitas de serem geradas por IA em outros jogos, como em uma nova versão de DropZone. Essa recorrência no uso de tecnologia generativa parece ser uma estratégia da empresa que, segundo Sorrell, demonstra a disposição de cortar custos e excluir profissionais humanos do processo criativo em favor de soluções automatizadas.
O desabafo sobre o legado da franquia Pond
Ao comentar sobre o estado atual da marca, Sorrell expressou uma tristeza profunda, ressaltando que, como desenvolvedor, ele valorizaria ver o seu trabalho sendo celebrado de forma digna e autêntica. Ele citou como exemplo positivo a coletânea Llamasoft: The Jeff Minter Story, que trata o trabalho do criador e a história da obra com o respeito e a curadoria que um legado merece.
Em contrapartida, o criador vê a nova coletânea de James Pond como um lembrete da atuação de empresários que, em sua visão, não possuem alma e exploram marcas por décadas sem qualquer consideração pelos autores originais. Para ele, o projeto atual é um exemplo claro da preferência por IA em detrimento do pagamento justo a desenvolvedores que poderiam criar novos materiais de qualidade.
A frustração de Sorrell é amplificada pelo fato de ter construído uma carreira respeitada com títulos como MediEvil, Prototype, Ghosthunter, Primal e 24: The Game. Ver um de seus trabalhos mais emblemáticos ser, em sua avaliação, diminuído publicamente de forma tão desrespeitosa é uma fonte de grande insatisfação profissional e pessoal para o criador.
Concluindo seu desabafo, o autor da série ressaltou que o tema da IA é complexo, mas que este caso específico ilustra o pior cenário possível de sua aplicação comercial. Sem esconder o ressentimento, ele afirmou que a atitude da empresa é um exemplo de como negócios sem escrúpulos estão dispostos a descartar pessoas se isso resultar em economia financeira, finalizando com o desejo sarcástico de que os responsáveis “engasguem com uma espinha de peixe gerada por IA”.
A System 3 ainda não se pronunciou oficialmente sobre as declarações de Chris Sorrell ou sobre as novas contestações acerca da procedência dos materiais de marketing da coletânea, deixando o futuro da franquia e a recepção dos fãs em um cenário de incertezas e descontentamento.